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Maniçoba

Nos Campos do Pirapitingui existiu uma aldeia jesuítica com o nome indígena de MANIÇOBA. Isto em 1553, antes mesmo da fundação do Colégio de Piratininga, núcleo inicial da cidade de São Paulo.

Maniçoba também chamada Japiuba, durou pouco tempo. Nas redondezas viviam índios Tupis, Guaranis e Carijós. A maioria desses índios percorriam as margens do Anhembi (rio Tietê), desde um porto chamado Pirapitingui até uma queda d’agua (Salto), uns três quilômetros mais abaixo. Outros habitavam algumas clareiras na serra do Japi.
Muitos foram trazidos pelas primeiras “entradas” dos brancos, no interior de Mato Grosso e até do Paraguai. Em relação à aldeia de Maniçoba, o papel principal de sua formação e tentativas de catequese, couberam aos valentes “soldados de cristo” da companhia de Jesus, fundação de Santo Ignácio de Loyola.

Dois nomes de jesuítas são importantes nessas remotas origens ituanas: os irmãos Pero Correa e Gregório Serrão. Assim que chegaram e reuniram os índios em Maniçoba (agosto de 1553) trataram de organizar uma escola. Veja o leitor que Itu, notável centro de cultura e religião pelos séculos afora, não podia deixar de começar por uma escola e, mais tarde, na fundação oficial de 1610, por uma Capela e a Cruz do Senhor.

O padre Manoel de Nóbrega então provincial dos Jesuítas no Brasil, não ficou alheio à Maniçoba. Já havia – quando percorreu o planalto – escolhido uma colina (fim de agosto de 1553) para a fundação do colégio de Piratininga (São Paulo), inaugurado em 25 de janeiro de 1554. Como estadista do tempo havia traçado um arrojado plano de evangelização e expansão territorial. Desejava avançar pelo interior – guiado pelas águas do Anhembi – até, se possível, alcançar o domínio espanhol do Paraguai e dos índios Carijós.

Por uma série de dificuldades, entre elas a oposição do governador geral que considerava temerária a empresa, Nóbrega viu-se obrigado a desistir. Andou, porém, uma boa distância pelo interior. O principal ponto mais distante do planalto onde ele chegou foi justamente Maniçoba (setembro de 1553). Vinha acompanhado de um filho de João Ramalho, o “primeiro português do planalto” e do irmão Antônio Rodrigues. Certamente, o Provincial ficou entusiasmado com a aldeia de Maniçoba, mais ainda com a escolinha onde o irmão Gregório Serrão – o mais antigo professor de Itu – dava suas lições aos índios. Era uma “escola de gramática”, escreveu o citado irmão Pero Correia, a segunda criada em São Paulo, entre as fundações do Colégio de são Vicente e de Piratininga. Há quem diga que Nóbrega foi até o Guairá.

Maniçoba durou pouco mais de um ano (1553/55). Gregório Serrão, ordenado presbítero, esteve em vários lugares. Culto, dedicado ao ensino, chegou a ser Reitor do Colégio da Bahia (Salvador), considerado ao nível de uma escola superior, na época. Ele faleceu no Espírito Santo em novembro de 1586.

A aldeia ituana foi sacrificada por vários fatores. O principal era a rivalidade entre os índios guaranis e carijós, permanente ameaça à integridade da aldeia. Também os brancos – maioria de mamelucos – não viam com bons olhos aquela aldeia, pois sabiam que ali era um refúgio de índios e nela estavam os catequistas, defensores dos índios. E eles procuravam índios para o trabalho escravo. Além das tribos rivais, havia nas proximidades de Maniçoba seguidas “guerras”, entre brancos e índios carijós. Quantas peças indígenas (ossos, vasos, urnas) foram encontradas nas escavações de antigos terrenos do Salão Paroquial da igreja matriz e do Largo de São Francisco, não deviam pertencer aos mortos daqueles conflitos.

O LOCAL EXATO DA MANIÇOBA
Para se localizar Maniçoba, diversas versões foram descritas. Nenhuma delas, entretanto, até o momento, comprova o local exato da aldeia. Nas cartas jesuíticas – únicos documentos sobre Maniçoba – há indicações de tantas léguas ou milhas, distantes de São Paulo de Piratininga, sempre um ponto de referência. O Monsenhor Paulo Florêncio, letrado historiador, diz que Maniçoba foi localizada por Gentil de Moura, em Itu. Quanto à situação em terras de Itu, não há dúvida. Mas, onde exatamente? Trata-se de um difícil problema histórico-geográfico, pois, Maniçoba não deixou vestígio algum. O historiador jesuíta Padre Hélio Abranches Viotti, eminente autoridade daqueles tempos, em abril de 1972, publicou um precioso trabalho intitulado. “A aldeia de Maniçoba e a fundação de Itu”. São treze páginas que deveriam ser reeditadas e distribuídas nas escolas de Itu e região.

À página 5, transcreve palavras do Padre Quirício Caxa, um testemunho da época. Diz que o Padre Manoel da Nóbrega e outros da Companhia foram a Maniçoba, “trinta e cinco léguas pelo deserto adentro, junto de um rio...”  O rio, não resta dúvida que é o conhecido Tietê. As 35 léguas correspondem a 210 quilômetros a partir de São Paulo. Essa distância, porém, iria bem adiante de Itu...  Outros Clássicos que trataram da época, arriscaram seus cálculos. Per Correia, 50 léguas (300 km) e Padre Simão de Vasconcelos, 40 légua (240 km) O padre José de Anchieta calculou a distância de Piratininga a Maniçoba em 90 milhas, e que daria, pouco mais de 230 quilômetros, aproximadamente, disse o padre Viotti. Cálculo bem mais viável. Maniçoba estaria nas proximidades de Salto, ou queda d’água, o Outuguaçu dos índios. Trata-se de uma excelente pista, isto é, o rio por perto.

ONDE FICAVA MANIÇOBA
Não se sabe ao certo onde ficava a aldeia. Talvez seja a mesma de que fala Simão de Vasconcelos, situada a 40 léguas de Piratininga (São Paulo) em direção ao sertão, não longe da Serra do Japi. Segundo ele, a aldeia ainda recebia outro nome, o de Japiuba, que quer dizer árvore dos Japis ou Japus, certo pássaro que deveria ser frequente na região.

Padre Anchieta menciona duas vezes a distância entre Piratininga e Maniçoba – 90 milhas (milhas romanas), o que resultaria em pouco mais de 130 quilômetros.

Outro texto histórico que trata da localização de Maniçoba foi escrito em 1575, pelo padre Quirício Caxa. Segundo ele, partindo de São Vicente, Maniçoba estava a 35 léguas pelo sertão adentro, junto de um rio onde embarcam para os Carijós. Se essa medida de distância for entendida como léguas de três mil braças, comuns no Brasil desde o século XVI, ela representa pouco mais de 230 quilômetros. Isso quer dizer que, seguindo pelo vale do rio Tietê, a rota aponta para a região de Itu e Porto Feliz, como reconhece o padre Helio Viotti, estudioso do assunto.
Cabe lembrar, diz ele, que essas medidas são aproximativas e será razoável considerá-las generosas, dada a aspereza do caminho ao sertão.

Hipóteses conflitantes
A falta de documentos mais precisos tem dado origem a variadas hipóteses sobre a exata localização da aldeia. O historiador Afonso de Taunay, idealizador do Museu Republicano Convenção de Itu/MP, acreditava que ela se estabelecera nas vizinhanças da cidade, senão no próprio território ituano.

Francisco Nardy Filho aceitou a tradição da existência de um aldeamento indígena no lugar onde se ergue a cidade de Itu, baseado na descoberta de igaçabas (urnas funerárias indígenas) no Largo de São Francisco (hoje Praça Pedro I). As igaçabas foram desenterradas em 1920, durante obras de arruamento da área.

Agenor Bernardini e Carlos Simeira, ambos falecidos, quando membros da Sociedade Amigos da Cidade de Itu (SACI), realizaram expedições em busca de testemunhos da existência da aldeia. Para eles, Maniçoba localizava-se numa área próxima à foz do rio Pirapitingüi. O professor Milton Ottoni, munido de fotos aéreas, textos jesuíticos e historiográficos, de certa forma chegou à mesma conclusão dos historiadores Nardy e Taunay.

Por outro lado, a partir dos mesmos documentos, estudiosos de Porto Feliz levaram Maniçoba ao lugar chamado Avaremanduava (que significa lugar onde o padre naufragou), légua e meia abaixo do antigo porto de Araritaguaba (Porto Feliz/SP).

Jonas Soares de Souza – Historiador ituano