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Açúcar e Café

A CULTURA DA CANA DE AÇÚCAR EM ITU
No terceiro decênio do século XVI iniciou-se a colonização regular do Brasil pelo sistema de Capitanias Hereditárias, principalmente em muitos pontos do litoral. Foi através do plantio de cana-de-açúcar que o colonizador pôde se enraizar na terra, contribuindo para o progresso da colônia. Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro se tornaram grandes pólos produtores de açúcar.

Em poucos anos o açúcar se transformou no “produto rei” suplantando o pau-brasil, tornando, assim, vitoriosa a colonização. Sua lavoura estendeu-se, também para o Estado de São Paulo, onde a principal área de plantio foi o famoso quadrilátero formado por Sorocaba, Piracicaba, Mogi-Guaçu e Jundiaí, onde também se inseria a cidade de Itu.

Ao término do século XVI, o Brasil já era o maior produtor mundial de açúcar. No interior de São Paulo, a produção é estimulada pelo governo paulista e o setor açucareiro cresce com o número de engenhos aumentando, em 1798, de 483 para 575, no ano seguinte. Todavia, cabe esclarecer que São Paulo não chegaria a alcançar o volume de produção comparável ao do Nordeste, naquela época.

Quando a freguesia de Itu foi elevada à categoria de Vila, em 1797, as crônicas revelam que a maior parte da população se ocupava da lavoura
canavieira. Com o crescimento da produção, o governador paulista Bernardo José de Lorena coloca Itu e Campinas no rol dos maiores produtores da região.

Dessa forma, nesses municípios responsáveis pela maior parte do açúcar consumido na Província de São Paulo, nasceu uma elite de fazendeiros ricos, responsáveis, mais tarde, pelos movimentos republicanos. Todavia, é preciso salientar que alguns fatores concorreram para a implantação da indústria açucareira na região, como as grandes reservas florestais que forneciam as lenhas para as fornalhas dos engenhos e a preciosa madeira para a construção de casas e edifícios.

Além disso, surgiu a figura do carpinteiro cujo conhecimento e habilidade proporcionou a construção dos engenhos e os demais objetos necessários para o trabalho. Por outro lado, a região também oferecia grandes recursos d’água para movimentar as moendas, assim como proporcionar água para os animais, necessários para o transporte do açúcar.

Na época da elevação da freguesia de Itu à categoria de Vila, em 1797, as crônicas revelam que a maior parte da população se ocupava da lavoura canavieira. Com o crescimento da produção, o governador paulista Bernardo José de Lorena coloca Itu e Campinas no rol dos maiores produtores da região.

A cana-de-açúcar é, talvez, o único produto de origem agrícola destinado à alimentação que, ao longo dos séculos, foi alvo de disputas e conquistas, mobilizando homens e nações. A planta que dá origem ao produto encontrou lugar ideal no Brasil. Durante o Império, o país dependeu basicamente do cultivo da cana e da exportação do açúcar. Calcula-se que naquele período da história, a exportação do açúcar rendeu ao Brasil cinco vezes mais que as divisas proporcionadas por todos os outros produtos agrícolas destinados ao mercado externo. 
 
Prof. Duílio Battistoni Filho
É membro da Academia Campinense de Letras e do Instituto Histórico Geográfico e Genealógico de Campinas.
Atua como professor titular de Elementos de Estética e História da Arte, no curso de educação artística do Instituto de Artes, Comunicações e Turismo da Puccamp. 


HISTÓRIA DA CANA DE AÇÚCAR EM ITU
 
A cidade de Itu é das mais antigas de São Paulo. Fundada logo na primeira década do século XVII configurou-se durante longo tempo como a mais interiorizada vila de São Paulo, adquirindo, por isso, o título de “Boca do Sertão”, pois até meados do século XVIII era o último entreposto comercial que abastecia áreas do Centro-Oeste como Mato Grosso. A partir de meados do século XVIII a produção açucareira trouxe grande prosperidade, fazendo com que Itu se tornasse a vila mais rica da província; em meados do século XIX a produção do café e do algodão também se tornaram atividades significativas. Essa história legou a Itu um expressivo número de fazendas, um representativo patrimônio cultural.
Para uma melhor idéia dos acontecimentos na primeira metade do século XVIII, os registros apontam uma profunda recessão em São Paulo. Nesse período, a província sofreu com duas novas situações: o deslocamento de paulistas para regiões de exploração de ouro e a divisão da província, com a separação de Minas Gerais (1738), Goiás e Mato Grosso (1748).1
Entretanto, após a chegada do governador Morgado de Mateus, em 1764, a
província começou a recuperar seu poderio econômico e enriquecimento. É a partir desse momento que se inicia um novo período da história paulista, que Alfredo Ellis Júnior denominou “ciclo do açúcar paulista, ciclo esse que adentrou as primeiras décadas do século XIX e que desenvolveu bases econômico-estruturais para a cultura seguinte: o café.
A partir da chegada do novo governador, a província passou a merecer atenção especial e ser fundamental para o novo ciclo econômico da colônia brasileira, chamado de “Renascimento Agrícola”, período de transição da economia mineral para a economia cafeeira. Nesse momento, uma desarticulação da produção açucareira na região do Caribe ampliou os mercados mundiais abrindo espaço para o açúcar da colônia portuguesa da América.
Segundo Maria Thereza Petrone, a vila de Itu se transformou nesse período, na
principal produtora do açúcar paulista, pois “em Itu estava concentrada a maior parte da indústria açucareira”. A prosperidade açucareira fez com que Itu se     
transformasse num dos mais importantes centros da riqueza paulista. Essas
mudanças fizeram com que a vila passasse a ser um dos principais pólos da cultura e da arte na província de São Paulo. Como relata Octávio Ianni.
 
Bibliografia:
 
PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil Contemporâneo. 4. Ed. São Paulo, Brasiliense, 1953.
2 PETRONE, Maria Thereza Schorer. A Lavoura Canavieira em São Paulo. São Paulo: Difusão Europeia do livro, 1968;
BELLOTO, Heloísa Liberalli. Autoridade e Conflito no Brasil Colonial: o Governo do Morgado de Mateus em São Paulo. São Paulo, Secretaria do Estado e da Cultura, 1979.
 
REPÚBLICA DO CAFÉ

A história do café tem sido exaustivamente estudada e uma longa bibliografia poderia ser arrolada, revelando um significativo interesse dos estudiosos por esse campo da história econômica e social do Brasil. Afinal, como já se escreveu, o café está intimamente ligado a história brasileira das últimas décadas do Império e da Primeira República. E o homem que, nas palavras de Emilia Viotti, fez a história da República, não poderia ficar indiferente ao tema. Edgard Carone não somente estudou exaustivamente a história do café como também reuniu em sua biblioteca uma extensa bibliografia sobre o tema.

Edgard Carone nasceu em São Paulo em 1923, ano da criação do Museu Republicano Convenção de Itu. Bacharelou-se em História pela Universidade de São Paulo, mas iniciou sua carreira acadêmica na Fundação Getúlio Vargas. Depois se transferiu para a USP, na qual se tornou professor titular de História do Brasil.
Carone, além de ter sido o historiador do período republicano foi, também, estudioso do movimento operário e socialista brasileiro. Ao longo de sua carreira produziu cerca de trinta livros, todos eles referência para os estudiosos da República. Através de sua obra Edgard Carone organizou e disponibilizou um valioso conjunto de documentos fundamentais para a compreensão da história do Brasil Republicano e do movimento operário. Deixou também uma biblioteca de mais de vinte e seis mil volumes, um dos acervos mais importantes para o estudo da história do país dos séculos XIX e XX que agora pertence à Universidade de São Paulo.

Reiterando o que tem sido afirmado por muitos historiadores, e preciso sempre ressaltar que ninguém poderá fazer história da República sem consultar-lhe as obras, que são referências indispensáveis tanto pela massa documental apresentada quanto pela revisão de determinados temas. Entre as mais divulgadas pode-se citar A República Velha em seus dois volumes: Evolução política e Instituições e classes sociais.

Os dois volumes de A República Velha são trabalhos de síntese e por isso, deixam de aprofundar determinados aspectos do processo histórico republicano, mas tanto um quanto outro contém um exaustivo levantamento de fontes. O primeiro ainda obedece a uma periodização mais tradicional, essencialmente cronológica, destacando os quadriênios presidenciais. Já no segundo, o autor roteiriza o conteúdo de modo diferente e faz uma eficiente distinção entre a realidade sócio econômica e o arcabouço jurídico-institucional do país.

A obra A República Velha fornece amplos subsídios para o estudo do Partido Republicano Paulista o PRP, que foi o representante político da poderosa elite cafeeira paulista e exerceu um poder hegemônico desde o período revolucionário, que corresponde à primeira década republicana, até 1930. Na segunda metade do século 19 os brasileiros passaram a conviver com novas reivindicações: proteção às nascentes indústrias, política favorável à imigração, separação da Igreja do Estado, melhoramentos no fornecimento de água, gás e transporte. A revolução tecnológica produziu novas relações entre o espaço urbano e o espaço rural. Alguns grupos urbanos se empenhavam nas campanhas abolicionista e republicana e pleiteavam representação na vida política.

É difícil estabelecer os limites que separavam as categorias urbanas das camadas rurais, como já argumentou Emília Viotti da Costa. Muitos elementos urbanos provinham das camadas senhoriais e outros acumulavam capitais e compravam terras, transformando-se em fazendeiros e senhores de escravos. Porém, é possível perceber a existência de camadas urbanas cujo comportamento se diferenciava das demais e cujos valores já não eram os mesmos das camadas senhoriais. Por exemplo, diante da abolição, eleições diretas e República, essas camadas revelavam o caráter novo de sua posição. Nessa época, aumentaram as pressões para novas participações no poder e cresceu o número dos descontentes com a excessiva centralização que caracterizava a administração imperial. Entre estes a ideia federativa ganhou prestígio, não faltando no seio dos mais extremados ideias separatistas. O Ideal republicano era uma antiga aspiração.

As inconfidências foram percebidas como as primeiras manifestações republicanistas no Brasil. Elas significavam a negação do Estatuto Colonial. Após a Independência, o ideal republicano passou a significar oposição ao Governo. Essa primeira fase, quando ainda não havia um partido republicano e menos ainda um programa republicano definido, foi chamada por Emília Viotti da Costa de republicanismo utópico.

Na segunda metade do século 19 o Ideal republicano adquiriu novo significado. A crise de 1868 gerada pela demissão do Gabinete Zacarias é apontada como fator desencadeante da mudança. No Partido Liberal surgiram então duas alas: a dos moderados e a dos radicais. Os membros da ala radical, na sua maioria, converteram-se para as ideias republicanas. Eles participaram da criação no Rio de Janeiro do Clube Republicano, que a 3 de dezembro de 1870 publicou um Manifesto.

A partir desse momento, nas páginas de A República constantemente apareciam cartas e proclamações de adesões de todo o Brasil. Uma das adesões mais significativas foi manifestada em carta de 20 de dezembro de 1870, assinada por Américo de Campos. Nela o Clube Republicano de São Paulo, ex-Clube Radical, colocava-se à disposição do Clube do Rio de Janeiro, em prol da sacratíssima causa republicana. Nos meses seguintes A República divulgou adesões de moradores de Jundiaí, Constituição (Piracicaba), Amparo, Itapetininga, Capivari, Itu, Rio Claro e Botucatu. Os republicanos paulistas, entretanto, não formavam um bloco homogêneo.

Eram frequentes as divergências entre o grupo agrário e o grupo urbano. Pouco a pouco, Américo Brasiliense de Almeida Mello foi atuando como aglutinador das diversas facções republicanas. Ganhando corpo a partir de 1870 e atuando como a principal força econômica brasileira devido à exportação de café, a elite cafeeira paulista não demoraria a entrar em atrito com a estrutura do Estado imperial. O centralismo monárquico e a falta de representatividade dos paulistas na vida política do Império incomodavam várias facções da elite cafeeira paulista. Uma parcela significativa desta elite defendia a implantação de uma república federativa, regime que tivesse como função romper com o centralismo monárquico sem por em risco a unidade nacional. Estas facções se fizeram presentes na Convenção de Itu, realizada a 18 de abril de 1873. A maioria dos republicanos presentes na Convenção era formada de fazendeiros de café. O objetivo maior do conclave era organizar o movimento republicano na então Província de São Paulo, depois da repercussão do Manifesto de 1870 divulgado no jornal A República, do Rio de Janeiro. A capital e diversas cidades se candidataram para sediar o encontro, mas Itu foi escolhida por eleição, em razão das articulações entabuladas pelos políticos locais. À reunião compareceram observadores do Rio de Janeiro e representantes de dezesseis cidades paulistas: Itu, Jundiaí, Campinas, São Paulo, Amparo, Bragança, Moji Mirim, Constituição (atual Piracicaba), Botucatu, Tietê, Porto Feliz, Capivari, Sorocaba, Indaiatuba, Belém de Jundiaí (atual Itatiba), Monte Mor e Jaú. A data escolhida, 18 de abril de 1873, certamente é indício de que os republicanos queriam associar a sua imagem ao progresso material de São Paulo: não por acaso, a Estrada de Ferro Ituana tinha sido inaugurada no dia anterior em solenidade na qual os republicanos tinham disputado espaços e discursos com os delegados do governo provincial . O local do encontro, o imenso sobrado em frente à lateral da Igreja matriz Nossa Senhora da Candelária, desvela a hegemonia do grupo liderado pelos irmãos Carlos e José Vasconcelos de Almeida Prado, que no papel de anfitriões não queriam perder a oportunidade de exercer maior controle sobre o encontro.

O conclave, até então denominado reunião, recebeu pela primeira vez a designação de convenção no Correio Paulistano, em sua edição de 25 de abril de 1873. O jornal noticiou o evento sem lhe dar muito destaque. Entretanto, com o passar do tempo, à reunião foram atribuídos significados que pouco a pouco a transformaram na Convenção de Itu, o dia de sua realização passou a ser lido como a data de fundação do Partido Republicano Paulista e a antiga residência tornou-se conhecida como a Casa da Convenção.

Américo Brasiliense de Almeida Melo, que desempenhou a função de secretário na reunião de 18 de abril de 1873, escreveu em 1891, momento em que ocupava o cargo de presidente do Estado de São Paulo: Assumi o difícil encargo [referia-se à presidência do Estado] com a mesma serenidade de ânimo, com a mesma calma e com a mesma convicção de bem, que me levaram àquela, já hoje célebre, reunião solenemente realizada a 18 de abril de 1873 e que passará à História com a denominação de Convenção de Itu.

O PRP começou a ser estruturado na Convenção de Itu e logo se tornou no representante político da poderosa elite cafeeira paulista. A passagem do Império para a República resultou de uma articulação entre os republicanos e militares do Rio de Janeiro. Mas, embasado em sua prosperidade econômica, o grupo paulista que estava ligado aos negócios do café apoderou-se do Estado republicano. Depois dos governos de Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, o poder civil consolidou-se durante o mandato presidencial de Prudente de Moraes (1894-1898) e este período foi decisivo para a viabilização da política econômica voltada para o modelo agro-exportador fundamentado no café. No quadriênio presidencial de Campos Sales (1898-1902) consolida-se uma política econômica abertamente favorável aos grupos exportadores de café e as situações estaduais tecem uma aliança com o governo federal inaugurando a chamada política dos governadores, que assegura a estabilidade interna necessária para a expansão da economia do café.

Donos do poder, republicanos paulistas e fazendeiros do café articularam a estratégia de criar um museu para narrar a historia da criação da Republica no Brasil. Pouco tempo depois da citada manifestação em 1891 de Américo Brasiliense, os republicanos paulistas passaram a demonstrar interesse na preservação da casa de Itu, na qual fora realizada a Convenção Republicana de 1873. Mas, a compra do imóvel pelo Governo do Estado se deu somente três décadas depois, num momento em que o PRP já começava sentir os primeiros sinais de desgaste após a longa hegemonia iniciada com a subida ao poder dos representantes da cafeicultura paulista nos governos de Prudente de Moraes e Campos Sales.

Em 1923 o Partido Republicano Paulista explorava a comemoração do cinquentenário da Convenção, em razão de seu valor simbólico, e a criação de um Museu Republicano como instrumentos de busca no passado da legitimidade histórica que pudesse ser manipulada a favor de sua estratégia de dominação. A aquisição do lugar do acontecimento da Convenção deveria ser a primeira etapa, com a qual a casa passava da condição simbólica privada para a administração pública do simbólico. Em 23 de dezembro de 1921 a Câmara dos Deputados de São Paulo aprovou a lei n. 1856, autorizando a compra da Casa da Convenção. O deputado Mário Tavares deixou bem clara aquela preocupação no discurso que ele fez durante os debates do projeto:

A assembleia soleníssima, em que foram tomadas deliberações fundamentais e vitais para a arregimentação democrática, realizou-se em Itu e teve a denominação de Convenção de Itu. Se ali nasceu o partido republicano paulista, que foi tantos anos o exemplo da abnegação, da disciplina e do bom doutrinamento, servindo de estímulo às outras agremiações nas antigas províncias, eu, fortalecendo-me no revigoramento daquela convicção, na lembrança daquelas doutrinas, seguro e tranquilo, julguei-me capaz de receber a comissão de constituir com os legítimos representantes do povo o Estado de São.Paulo, autônomo, republicano e forte na grande República Brasileira. Celebremos o passado. Entreguemos a casa modesta, onde nasceram o Partido Republicano e a democracia brasileira, ao preito do povo e especialmente da mocidade, para que ela transmita, de geração a geração, o fogo sagrado desta fé vigorosa nos destinos da nossa terra.

O Governo Estadual investiu quarenta contos de réis na incorporação do imóvel ao patrimônio público e liberou o crédito de oitenta contos de réis para as despesas orçadas com a reforma e a adaptação da antiga residência assobradada ao novo programa de uso.

Washington Luís Pereira de Souza, presidente do Estado de São Paulo, escolheu o historiador Afonso Escragnolle Taunay para supervisionar a intervenção de adaptação dos espaços internos do sobrado ao programa do museu. Taunay, que então dirigia o Museu Paulista, também foi encarregado da tarefa de organizar a nova instituição museológica. Os engenheiros Carlos Quirino Simões e Achilles Nacarato fizeram o projeto de reforma do edifício a pedido da Secretária de Estado dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. Na correspondência de 18 de novembro de 1922 que endereçaram ao diretor de obras os engenheiros justificaram a intervenção programada:

Os reparos, de pequena monta, se justificam por suas próprias naturezas, e representam pequenos cuidados para manter em bom estado de conservação as várias partes do prédio; tive, porém, de computar a reforma total do telhado, tal o estado impressionante em que se apresenta impróprio para uma moradia comum e muito menos para um museu; cobertura construída em 1867 e retocada desorganizadamente, por várias vezes, ali se notam cumieira, rincões, terça, caibros e ripas em madeira roliça e fasquias de coqueiros de mistura com madeira serrada e lavrada, sem uniformidade de dimensões, sem regularidade na disposição e apodrecidas em grande parte. Notarei que as telhas datam da época citada e as tesouras, além das dimensões reduzidas, têm falta de peças, supridas por pontaletes e escoras. Na pintura, ainda cumprindo vossas ordens, substitui as partes em papel por uma caiação sóbria e que satisfaça os fins em vista. Os preços compostos do meu orçamento são os mesmos da tabela organizada no escritório técnico para o estudo de adaptação, ali em andamento, do prédio da Convenção para um museu de relíquias republicanas.

As obras foram executadas apressadamente, para que tudo se concluísse na data aprazada. Às vésperas da inauguração o responsável participava ao diretor de obras: Está concluída e recebida, desde 18 do corrente, a reforma do prédio destinado a um museu de relíquias republicanas. Os trabalhos obedeceram ao projeto e orçamento elaborados; foram executadas todas as modificações que o  Presidente do Estado determinou em sua visita de 9 do corrente.

Alguns cômodos deixaram de existir para ceder espaço a duas áreas de iluminação e paredes foram derrubadas para abrir um grande salão no pavimento superior. A abertura desse salão foi decidida pelo próprio presidente Washington Luís, durante visita de inspeção realizada na companhia do deputado Carlos de Campos e do Secretário de Estado dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas Heitor Penteando. A cúpula do PRP acompanhou de perto o andamento das obras e determinou que nos cômodos utilizados pela convenção republicana não se fizesse qualquer mudança, e neles absolutamente não se tocou; estão tal qual eram a 18 de abril de 1873.

Pronto o cenário, montou-se a solenidade da inauguração do Museu Republicano e do cinquentenário da Convenção de Itu. O evento tinha que ser uma grande festa do PRP. Na rua fronteira ao sobrado ajuntou-se a multidão para ver a chegada da comitiva do presidente do Estado. O grande salão do pavimento superior, que surgiu depois da derrubada das paredes que confinavam antigas alcovas, acomodou os filiados do partido, secretários de Estado, acadêmicos de Direito, deputados, vereadores, prefeitos, jornalistas, escritores, convencionais e familiares de convencionais já falecidos, além de curiosos que mais uma vez a tudo assistiam bestializados. No discurso que convinha à ocasião, rodeado dos presentes e dos retratos a óleo dos convencionais de 1873, Washington Luís disse ao público que o ouvia em absoluto silêncio, na avaliação de uma testemunha ocular:

Essa festa de hoje, exclusivamente cívica, puramente republicana, cultuando o passado democrático, presta uma homenagem respeitosa aos homens extraordinários da Convenção de Itu, cujos sobreviventes emprestam a esta assembleia uma solenidade venerável; significa a tranquilidade da hora presente diante das realizações feitas; exprime a confiança, que não desfalece, nos tempos por vir, e mostra inequivocamente, numa reafirmação imponente e comovedora que, cônscios das grandes responsabilidades que lhes cabem no regime, assim no passado como no presente, não perderam os paulistas as características do seu gênio. Intemeratos, fortes, desprendidos, estão sempre juntos, prontos, ao primeiro toque de reunir, na defesa da república. A festa de hoje pertence indiscutivelmente ao Partido Republicano Paulista, cujas origens se diluem no passado, mas se juntam na Convenção de Itu, avolumando-se cada vez mais e continuamente na propaganda, na proclamação, na defesa e na manutenção da república.
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O presidente foi aplaudido demoradamente. Ao findarem os discursos e os cumprimentos de praxe, Washington Luís desceu os degraus de acesso ao saguão da entrada e descerrou a lápide, onde ele próprio mandara gravar em bronze:

Comemorando a efeméride cinquentenária e ilustre de 18 de abril de 1873 com a instalação deste instituto destinado a celebrar os fastos do republicanismo paulista, grato e reverente preito consagra o Governo do Estado de São Paulo, por seu presidente Washington Luís Pereira de Souza, a memória benemérita dos que na assembleia imorredoura da Convenção de Itu, neste edifício reunida, atestaram à face da Nação Brasileira o despontar e a energia do Partido Republicano Paulista fazendo ouvir as vozes de sua fé e as de sua esperança no triunfo definitivo da República Federativa.

Fundida em bronze pelo artesão Roque de Mingo, a placa reproduz o modelo entalhado em madeira por H. Bakkenist, o mesmo autor da maquete São Paulo em 1840, executada para o Museu Paulista. Depois de servir de molde da placa de bronze da inauguração, o modelo em madeira foi restaurado e presenteado a Washington Luís. Taunay, autor da iniciativa, mandou o presente ao destinatário acompanhado de um ofício no qual reforçava o papel do presidente de Estado na criação do museu espero que cause prazer este objeto que recorda uma fundação a V.Exa. devida. Na data da inauguração, marcada para coincidir com o cinquentenário da Convenção de Itu, a exposição do Museu Republicano ainda não estava concluída.Taunay incumbiu-se de justificar a situação um instituto desta natureza só depois de passados anos assume proporções consideráveis, não se improvisando museus, e de descrever a comemoração. Ele atribuiu ao evento um caráter espetacular, digno de ser incluído no panteão de festas e efemérides nacionais. Como ele mesmo conta, inaugurou-se o Museu com uma incompleta galeria de retratos de vultos eminentes do republicanismo: signatários do Manifesto de 1870, propagandistas da república, membros da Convenção e membros do governo provisório da República. Washington Luís acompanhou passo a passo o processo de escolha dos retratados e dos pintores contratados para a produção dos retratos a óleo. Depois da inauguração, o acervo começou a ser ampliado por meio de compras e de doações de familiares dos convencionais de 1873, membros do PRP e do próprio Washington Luís. Uma das primeiras aquisições foi o mobiliário indicado por José Vasconcelos de Almeida Prado e Olímpia Augusta da Fonseca Almeida Prado, viúva de Carlos Vasconcelos de Almeida Prado, com o intuito de encenar parte do ambiente da residência em 1873. Taunay explica que o objetivo do museu era comemorar a Convenção de Itu e os grandes homens da fase de propaganda até a proclamação da República e, ao mesmo tempo, por se achar instalado numa residência típica do século XIX, lhe ocorrera a ideia de também fazer dele um museu de artes decorativas, dando aos visitantes a ideia do que eram o mobiliário e a ornamentação de uma casa rica brasileira pelas vizinhanças de 1870 com o seu feitio típico de disparidade muito de bric à brac, pela mistura de estilos e procedências. Como de costume, depois das buscas e localização do mobiliário, Taunay submeteu a ideia a Washington Luís: Aqui lhe remeto uma série de fotografias demonstrativas da nova arrumação do seu museu. Pelo Sr. Dr. Alarico soube da sua decisão sobre o caso da mobília. Vamos a ver se se descobre outra em melhores condições, porque como verá da fotografia ela vai admiravelmente naquele ambiente. Melhor é impossível até. Só falta o tapete e o lampião de querosene na mesa do centro e o Senhor. se verá transportado à sua infância, à casa paterna, ou avoenga, como na Macaé. Convencido, Washington Luís consentiu e Alarico Silveira, Secretário do Interior, liberou uma verba extraordinária para a compra da mobília da família de Felício Marmo. Os tapetes e lampião de querosene foram comprados logo em seguida.

A transformação da casa em museu consistiu numa estratégia de objetivação da memória, isto é, de lugar simbólico no qual se realizou um evento significativo ao PRP Partido Republicano Paulista, em instituição destinada a legitimar historicamente a hegemonia do grupo social ligado aos interesses dos grandes cafeicultores, que lhe dava suporte.

Jonas Soares de Souza